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A comédia do poder (L´Ivresse du pouvoir)
De Claude Chabrol
Com Isabelle Huppert
França - 2005 - Duração 110 min
O tema de um juiz determinado a corrigir uma série de atos de injustiça e corrupção não é novo no cinema francês - podemos lembrar do Juiz Fayard, o Xerife, interpretado pelo excelente e saudoso Patrick Dewaere, entre outros. Mas olhando mais de perto, o propósito de Claude Chabrol é outro. A comédia do poder não é um filme sobre a corrupção. É um filme sobre uma mulher e aqueles que ela decide aniquilar.
O estilo é intimista. A senhora juíza conduz sua investigação como se segurasse um orgasmo: a máscara é de mármore, diáfana, concentrada, com algumas alterações que não deixam dúvidas. Um brilho furtivo na pupila, um movimento recorrente dos lábios, entre um sorriso e uma careta, a maneira de manipular as luvas ou os óculos.
A senhora juíza gosta dos homens no chão. Ela só sossega depois de tê-los jogado no piso, incluindo seu próprio marido, que acaba por se atirar pela janela. É só então que o sossego chega, na forma de uma extrema lassitude, de um fatalismo que nos revela que ela tinha apenas um objetivo: ir até o fim. Post coitum animal triste. Depois da embriaguez, a ressaca.
Quem, além de Isabelle Huppert, poderia concentrar, em um rostinho tão infantil, tão fria determinação? Numa silhueta de ninfa, tanta intensidade? Mas o seu verdadeiro talento vai ainda mais longe: é essa profundidade, essa complexidade no jogo, essa capacidade de deixar aflorar, sob a máscara fria, uma confusão desordenada de sentimentos sutis e escondidos. Afloração perceptível apenas pelo espectador, é claro, a ponto de ter às vezes a efêmera e feliz impressão de poder tocar um certo aspecto indefinível que a torna, apesar de tudo, simpática.
Perseguimos, como seu marido, a imperfeição, um rasgo de humanidade que espelhamos nela sem que jamais nos entregue, como uma miragem. Não chegamos a odiá-la por isso, nem a amá-la realmente. Não conheço outra atriz capaz de nos deixar diante de tal incerteza em relação ao personagem que encarna. Uma única coisa é certa: Isabelle faz mágica.
Revista Filmes do Estação