A 4ª CineOP - Mostra de Cinema de Ouro Preto acontece de 18 a 23 de junho com exibições em três espaços da cidade o Centro de Convenções, onde será instalada a sede do evento e o Cine-Teatro (500 lugares); a Praça Tiradentes, com o Cine-Praça (1000 lugares) e o precioso Cine Vila Rica (500 lugares), fundado em 1957 e, ainda hoje, uma referência entre as salas de exibição que resistiram ao tempo no interior de Minas Gerais.
MÚSICOS FRANCESES EMOCIONAM PLATÉIA DA 4ª CINEOP COM EVENTO DO ANO DA FRANÇA NO BRASIL
Chancelada no calendário oficial das comemorações do Ano da França no Brasil, a 4ª CineOP Mostra de Cinema de Ouro Preto deu início neste domingo à programação dedicada ao evento, com a apresentação em estréia nacional do cine-concerto Le Rendez-Vous du Samdi Soir. O evento consistiu da exibição de três clássicos curta-metragens franceses Sur un Air de Charleston (1926) e La Petite Marchande dAllumettes (1928), de Jean Renoir, e Entracte (1924), de René Clair com acompanhamento musical ao vivo por Marco Pereira das Neves, Celine Benezeth e Máxime Roman, em uma sessão que remeteu à tradição do cinema mudo do início do século XX e que já havia sido realizada com sucesso em diversas cidades francesas.
A apresentação do trio francês emocionou as mais de 600 pessoas que tomavam o Cine Vila Rica em todas as suas poltronas, corredores e escadas. Do humor de Sur un Air de Charleston à dramaticidade de La Petite Marchande dAllumettes, passando pelo experimentalismo de avant-garde de Entracte, o público acompanhou as projeções com um silêncio religioso e ovacionou os músicos franceses, aplaudindo-os de pé a cada intervalo de projeção entre os três filmes.
A presença francesa continua na segunda, com a apresentação de Camille BLOT-WELLENS, diretora de coleções de filmes da Cinemateca Francesa e responsável pela restauração de obras do cineasta alemão F.W. Murnau, que irá compartilhar sua experiência com o público brasileiro na palestra A Problemática da Preservação e Restauração de Filmes pela Ótica da História das Técnicas Cinematográficas.
Mas o cinema brasileiro dos anos 70 continuou como grande destaque na programação deste domingo. Além da exibição da restauração de curtas-metragens realizados no período pelos cineastas João Batista de Andrade e Wagner de Carvalho e da projeção ao ar livre de um dos grandes sucessos da década (Roberto Carlos a 300 km por Hora, de Roberto Farias), o Seminário do Cinema Brasileiro abriu espaço para um contraponto à discussão realizada no sábado sobre o cinema da Embrafilme com o debate "Estratégias da Boca do Lixo".
Contando com as participações da atriz Neide Ribeiro, do crítico de cinema Inácio Araújo e dos cineastas Guilherme de Almeida Prado e Carlos Reichenbach, a mesa não escapou de discutir o cinema popular da época, o que se perdeu de lá para cá e quais os possíveis caminhos para o cinema brasileiro se reaproximar desse grande público.
Abrindo a discussão, a atriz Neide Ribeiro ocupou o espaço tomado por sua colega Zilda Mayo na mesa de sábado sobre a mulher no cinema da década de 70 e também arrancou gargalhadas da platéia com seus relatos sobre as produções da Boca do Lixo. "Fui trabalhar no cinema para sair de casa, precisava do dinheiro. Meu pai disse que eu ia parar na sarjeta, mas acabei na Boca do Lixo. Para ele deve ter sido a mesma coisa. Eu entrava muda, tirava a roupa e saía calada, mas fazia isso pelo dinheiro", contou Neide para diversão da platéia.
Inácio Araújo lembrou que o cinema produzido na Boca do Lixo naquele período não era apenas a comédia erótica pelo qual é lembrado até hoje, mas que havia filmes de cangaço, faroeste e caipiras, entre outros. "O público da Boca sabia diferenciar filmes bons de outros ruins, muitas vezes com uma percepção cinematográfica surpreendente. Mas colocamos essa grande conquista de público a perder com uma produção imediatista, sem perspectiva de longo prazo", analisou o crítico paulista.
Para uma platéia que contava com a presença da atriz Helena Ignez e do cineasta Gustavo Dahl, Carlos Reichenbach relembrou como era fácil produzir naquele período. "Era fácil convencer um produtor da Boca a realizar seu filme, mas hoje temos que tentar enganar um panaca nisso que se tornou um verdadeiro vestibular de editais", confidenciou um Carlão visivelmente contrariado com a atual situação do cinema brasileiro, enquanto citava uma série de filmes da época que considera obras-primas que, hoje, dificilmente teriam condições de serem produzidas.
Já Guilherme de Almeida Prado apontou na chanchada o gênero popular brasileiro por excelência e afirmou que essa base popular é a "cama" para o cinema mais autoral, sendo justamente isso que está faltando ao cinema brasileiro atual. "Talvez isso que chamo de Globochanchadas possa ser um caminho para isso, pois não vão abrir um cinema em Itabira do Norte para passar meu filme, mas podem abrir para passar Se Eu Fosse Você 3 ou 4, e aí em vou lá e passo o meu durante uma semana", disse o cineasta, referindo-se a um email que recebeu de um espectador reclamando que gostaria de ver seu filmes mas que ele não chegava até sua cidade.
Na temática de preservação, o Seminário continuou com as mesas "Memória Audiovisual como Patrimônio Cultural" (com a participação do diretor da Cinemateca Brasileira, Carlos Magalhães; da diretora da Cinemateca da Embaixada da França, Catherine Faudry; o gerente do Centro Técnico do Audiovisual, Gustavo Dahl; e o Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Silvio Da-Rin), "O Desafio de Preservar Relatos e Experiências" e "O Desafio das Imagens Um Arquivo de Cinema num Arquivo de TV".
Já o Cine Vila Rica ilustrou o debate realizado um pouco mais cedo com uma sessão dedicada à Boca do Lixo, com o documentário O Galante Rei da Boca, de Luís Rocha Melo e Alessandro Gamo, e o curta Minami em Close-up A Boca em Revista, de Thiago Mendonça. O dia teve ainda o lançamento nacional da 2ª edição do já fundamental "Dicionário de Filmes Brasileiros", referência para todos os envolvidos e interessados no cinema nacional compilado por Antônio Leão da Silva Neto
Na segunda, além das apresentações de especialistas franceses em preservação do Seminário do Cinema Brasileiro, haverá sessões de curtas e médias nos três espaços da cidade: o Cine-Teatro, o Cine Praça e o Cine Vila Rica, que verá também a exibição daquele que é até hoje o maior sucesso do cinema brasileiro de todos os tempos, Dona Flor e Seus Dois Maridos, filme de Bruno Barreto de 1978.
Já na terça-feira a 4ª CineOP encerra suas programações com o debate "O Mínimo Denominador Incomum", sobre a produção contemporânea de curtas-metragens exibida nesta edição da mostra e a estréia nacional de quatro documentários: Lingston Perli Cherliê, de Bernard Belisário; Noiva do Cordeiro, de Alfredo Alves; Notas Flanantes, de Clarissa Campolina; e o filme de encerramento, Cidadão Boilesen, de Chaim Litewski.
Informações para o público:
(31) 3282.2366 Universo Produção site oficial: www.cineop.com.br